Álbum da Semana “Canções de Luta e Liberdade”; Adriano Correia de Oliveira “Trova do Vento que Passa”

R-1913374-1299514050Boa tarde,

Por mais repetitivo que possa ser, não há como escapar. Esta é a semana em que celebramos mais um 25 de Abril, o Álbum da Semana teria que focar esta temática e algumas das suas músicas mais marcantes. A propósito dos 30 Anos da Revolução dos Cravos foi editado, através do Jornal Público, o disco duplo “Canções de Luta e Liberdade”, com algumas das canções mais emblemáticas referentes a este período. Entre cantigas mais evidente a outras mais “esquecidas” é um excelente lote de 32 músicas. Começamos a semana com Adriano Correia de Oliveira e a “Trova do Vento Que Passa”. O poema é de Manuel Alegre e é de tal forma sublime que não nos podemos escusar a apresentá-lo também.

Boa audição

Trova do Vento Que Passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio — é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

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