Entrudo na Cardanha – 9 e 10 de Fevereiro

Boa tarde meus amigos,

Como prometido aqui fica o cartaz das festividades do Santo Entrudo na Cardanha, a celebrar no próximo fim-de-semana na aldeia da Cardanha em Torre de Moncorvo. Mais uma excelente iniciativa do nosso amigo André Tereso e do Grupo Aldeia Viva que temos todo o prazer em divulgar. É aproveitar porque depois é tempo de penitenciar!

Abaixo do cartaz encontra-se ainda um texto da autoria do Grupo Aldeia Viva a explicar os diferentes eventos da festa.

Boa Leitura e melhor diversão ainda!

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INVERNO MÍSTICO TRANSMONTANO 2013
SANTO ENTRUDO na Cardanha, Torre de Moncorvo
9 e 10 de FEVEREIRO

O Inverno chega a Trás-os-Montes com as primeiras geadas. As estações intermediárias, da Primavera e do Outono, pouco se fazem sentir nesta região. É tempo de reclusão, seio familiar, introspeção e de recarregar baterias. A televisão e a renda são as principais companhias, e a lareira é a quem se desabafa diariamente.

Apesar do frio, dedica-se o tempo à apanha azeitona, a limpar as vinhas e a preparar o fumeiro. Os campos voltam a ficar verdes e com pasto para o gado. Os ribeiros começam a correr. Nas hortas predominam as nabiças, os nabos, semeiam-se as favas, os alhos e fazem-se os primeiros canteiros para o início da Primavera.

O Natal trouxe de novo movimento e calor a esta região. Desde o verão, que os familiares distantes não voltavam para ver quem ainda tem na lembrança e levaram no coração. Com o ano novo, renovou-se as esperanças e apelou-se aos reis por um ano cheio de coisas boas e com muitas concretizações. Vem ai um outro tempo, novos desafios, novas energias.

O entrudo em Trás-os-Montes ainda está muito enraizado e vincado no calendário das festividades mais importantes de algumas aldeias e da região. Apesar dos tempos e das alterações, ainda há quem se lembre e celebre o verdadeiro intuito do Entrudo rural e tradicional. Este era e é celebrado para festejar o inico de um novo ciclo da Natureza, novo ciclo agrícola, um momento de purificação, de fecundidade e de expurgar o corpo e o espírito. Por estes dias, as pessoas toleram tudo e todos, os mais novos fazem partidas, os rapazes largam deixas às raparigas, fazem-se rituais de crítica social e as pessoas convivem.

Pretendemos então recuperar, recriar o tradicional dia do Santo Entrudo que se vivia outrora na Cardanha, com o zurnar do Entrudo, as cacadas, a serração da velha, o partir do Burro, a queima do Santo Entrudo, e tudo que possa estar associado e caracterizar este momento, para que assim não se deixe cair no esquecimento esta tradição e a importância deste momento na vida social desta aldeia.

De forma a valorizar esta atividade e ao que a ela está associado, irão realizar-se várias atividades complementares que possam espelhar como era outrora este momento festivo. Aqui não pode ser esquecido o ciclo da pastorícia, e o arroz doce que era típico desta altura, e que era feito com leite de ovelha oferecido pelos pastores, assim como o fumeiro e as verduras para o caldo, que serviam de base na alimentação. A música e a dança embelezavam e aliviavam o cansaço nestes dias de festa, e era onde os mais novos se exibiam e demonstravam a sua criatividade.

Convidamo-los então a recordar, e participar neste convívio e a fazer a festa para que não se deixe cair a identidade desta aldeia e do mundo rural.

SANTO ENTRUDO DA CARDANHA
Várias eram as actividades promovidas pela população da Cardanha nos seus festejos do Santo Entrudo. Concentravam-se essas essencialmente na terça-feira de carnaval, dia em que se realizava a mais esperada e carismática travessura do entrudo, a “partida do burro”; outras, porém, começavam alguns dias antes, no “domingo gordo” reservava-se sempre espaço para algumas brincadeiras, ou podiam mesmo estender-se até ao início da austera época da quaresma.
– O Zurnar do Entrudo.
Numa noite que antecedia o entrudo, um grupo de rapazes juntava-se a altas horas nas imediações da povoação, munidos de um funil ou outro acessório que encobrisse a voz do declamador, lançando palavras de repreensão, chamadas de atenção, brincadeiras ou ofensas, dirigidas a algumas pessoas da aldeia, sobretudo às raparigas solteiras.

– Cacadas.
Nos dias que antecediam o entrudo e até à data da quaresma, era costume os rapazes e as raparigas mais jovens fazerem uma partida a que se dava o nome de “cacadas”, ou seja, atiravam pedras, latas, telhas velhas ou outras quinquilharias para dentro de casas alheias, com a intenção de fazer barulho e sujar o interior das habitações, deixando irritados os donos das mesmas. Numa versão mais simpática, atiravam-se sacos ou cestas com laranjas, castanhas ou nozes.

– Serração da Velha.
Também igualmente nas noites que antecediam o entrudo e até à data da quaresma, junto à morada das senhoras com mais idade na aldeia, um conjunto de rapazes preparava a “serra a velha”, com latas e ferros que raspavam nas paredes da casa fazendo imenso barulho. Enquanto vão gritando “Serra a velha… Serra a velha…”, é lançada a seguinte quadra:
Serra a velha, deixa a nova,
serra a velha até à cova.
Serra a velha no cortiço,
minha avó, não queira isso.

– Jogo do Cantarinho.
Jogo tradicional da época do entrudo, que consiste em atirar um cântaro de barro de uma pessoa para outra, com o objetivo de não o deixar cair e se partir. Pode ser jogado com os intervenientes em andamento ou parados em círculo. Quem deixasse cair o cântaro ao chão, e caso este se partisse, essa pessoa tinha a obrigação de arranjar um outro para que o jogo continuasse.

– Música e Contradanças.
Como habitualmente neste tipo de festas, a música e a dança são corpos presentes, indissociáveis. Na festa do Santo Entrudo na Cardanha, a tuna popular da aldeia, constituída por um grupo de tocadores de guitarra, viola, bandolim e ferrinhos, e por vezes também harmónica, deambulava pelas ruas tocando e cantando músicas populares, locais e nacionais. De quando em quando paravam num espaço mais aberto e aí surgiam momentos de baile espontâneo, envolvendo a aldeia em danças de roda e danças de par.

– A Partida do Burro.
Deixas em verso feitas e lançadas pelos rapazes às raparigas solteiras do povo, a partir dos 17-18 anos. Cada verso é dedicado a uma rapariga deixando uma parte específica do burro. O declamador, disfarçado ou tapado, seguia em cima de um carro de bois carregado por outros rapazes. O carro saía a meio da tarde de terça-feira de carnaval, parando em algumas zonas da aldeia, repetindo o declamador as deixas, ou então lançando à porta da rapariga a quem era dirigida uma deixa. Ao longo do trajecto os rapazes que acompanhavam o cortejo iam atirando cinza ou farinha a quem se aproximasse do carro, preservando assim a imagem do Santo Entrudo.
Entre as deixas havia por norma uma quadra utilizada de entrada e outra de saída:

Quadra de entrada
Viva o mestre Zé
tem casaca de veludo,
viva quem festeja
o Santo Entrudo.

Quadra de saída
A quem ficar chateado
com o que lhe coube do burro,
que entregue as partes no talho
e as queixas ao Santo Entrudo.

– Mascarados.
Na Cardanha era também habitual ver-se grupos de mascarados nas ruas da aldeia. Uma das máscaras mais comuns seria semelhante às matrafonas, isto é, rapazes trajados de raparigas ou o contrário. Mas saiam outros tipos de máscaras, com as caras dos mascarados tapadas por rendas ou meias. Estes mascarados não raras vezes, aproveitando o seu momentâneo anonimato, entravam pelas casas dentro, assustando as pessoas que lá se encontravam que só se viam livres desses quando lhes dessem alguma coisa de comer ou beber.

– Queima do Entrudo.
A festa finalizava com a queima do Entrudo, um boneco antropomórfico feito de palha que dava a volta à aldeia no final dessa tarde, juntando as pessoas em cortejo até local próximo do cemitério. Aqui era atado um cartucho de foguete e lançado ao ar, enquanto o povo se despedia, acenando e gritando “adeus” e “até para o ano”.

Grupo Aldeia Viva

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